Maldita linha divisória

Bom, mau.
Bem, mal.
Honesto, safado.
Vítima, culpado.
Ódio, amor.

Para estar neste mundo, nós criamos mentalmente (e recebemos de nossos pais e transmitimos para nossos filhos) a ideia de uma de linha divisória imaginária que se interpõe a tudo que mexa com nossa segurança ou nossas emoções, à qual chamamos de JULGAMENTO e que separa o mundo bom do mundo ruim. Essa linha é traçada e retraçada dezenas de vezes por dia diante de tudo que nos bate à mente. Ela é automática e instintiva, apesar de a gente achar que está no comando. Ingênua ilusão.

 

O QUE FICA LÁ (LADO RUIM) E O QUE VEM PARA CÁ (LADO BOM).

O verdadeiro critério da nossa linha de julgamento é um só: o binômio prazer-ameaça. E o cérebro é GE-NI-AL em arrumar justificativas para dar a impressão que a gente soube julgar e decidir onde é que a linha passará e quem será absolvido ou condenado. Você acha que são seus valores. Mas é apenas o jeito que o cérebro encontrou para justificar seus instintos relacionados a prazer-ameaça diante das circunstâncias.  O que vai para lá (ruim) é o que nos ameaça e não nos dá prazer. O que vem para cá (bom) é o que nos dá prazer e não ameaça. OK, aceito sua discordância. Você precisa de um tempo para começar a admitir.

POLÍTICA é um ótimo exemplo da imprecisão da linha que julga: enquanto somos oposição, eles são ladrões. Quando assumimos o poder, eles são golpistas e conspiradores. Feche os olhos, gire o calendário, pare o dedo sobre um ano qualquer da história republicana e verá que esse mantra vale, independentemente do governo.

Crime de ROUBO é outro exemplo revelador: roubar é crime, mas usar programa pirata, ou assistir filme baixado na internet é puritanismo demais né?

PESSOAS que conhecemos: quantas vezes você se decepcionou com quantas delas. É até covardia começar a contar, não é mesmo?

 

O PROBLEMA NÃO ESTÁ NO LUGAR ONDE VOCÊ COLOCA A LINHA. ESTÁ NA PRÓPRIA LINHA.

Seja esperto (de verdade) e comece a se dar conta de quanto você tem sofrido inutilmente por julgar, não importa quantas vezes você mude seu critério de julgamento.
Admita que o problema está no próprio critério: o binômio prazer-ameaça (está ficando menos indigesta essa ideia?).
Nosso julgamento é falho porque desconhecemos o próprio critério. Somos reféns dele.
E faço um desafio agora: quando (e se) você começar compreender as verdadeiras razões das coisas, se negará a julgar. Porque estará compreendendo. É simples.

 

PORQUE ESSE INSTINTO DE JULGAR?

Quando a gente admite que julgar é uma reação relacionada a um instinto, o turbilhão da confusão fica mais nítido na mente. Estando consciente disso, você verá o quanto o julgamento chega rápido, bem mais que você, e pula à frente da compreensão.
A questão é que o instinto não pode se manifestar na sua forma mais crua. Seria admitir nossa fraqueza. Porque nós, à medida que evoluímos como sociedade, tivemos que nos adaptar a uma coisa chamada acordo social. Nós somo uma rede social. E em sociedade, nós conjuntamente decidimos seríamos civilizados, bons, cordiais, honestos, cheios de virtudes.
E sem perceber, começamos a traçar uma linha que separa o bom do não bom, o cordial do grosseiro, o honesto do safado, o virtuoso do defeituoso. O “lado ruim” é um subproduto do “lado bom”. O lado de lá da linha imaginária não podia ficar vazio. Afinal, para que eu possa ser “bom”, é fundamental que exista o ruim.
Eu PRE-CI-SO estar do lado de cá. É uma questão de sobrevivência neste mundo.
E assim, nós passamos a julgar. A colocar tudo na balança, a fim de nos absolvermos dela.

 

ESSA LINHA PASSA EM TORNO DO SEU PESCOÇO. LIVRE-SE DELA.

Não julgue. Não condene. Não se julgue. Isso não existe.
Ninguém fez nada de errado. Somos todos humanos, instintivos, amorosos, imperfeitos, sobreviventes e altamente defensivos, mas também generosos.
Nós não cabemos nessa linha estreita demais.
É inadiável que nos compreendamos, certo?

Ou errado?

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